Buscar no Blog
quarta-feira, 9 de março de 2011
Historiador destaca conquistas da mulher nas diversas áreas da sociedade
Repórter da Agência Brasil
Rio de Janeiro - A luta pelo voto, a ampliação da participação feminina no mercado de trabalho e a atuação crescente na vida pública são as principais conquistas que devem ser comemoradas hoje (8) pelas mulheres no Dia Internacional da Mulher, disse à Agência Brasil o historiador Oswaldo Munteal, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). “É a mulher como sujeito da ação, dentro da evolução política brasileira”, afirmou. Para o historiador, a luta pelo voto no Brasil foi uma conquista de muitas mulheres isoladamente e também do movimento coletivo de mulheres, ao participarem das forças de trabalho nas fábricas, no campo e no setor de serviços.
O segundo eixo importante na ampliação do papel feminino na sociedade é a sua participação na família, deixando para trás a imagem restrita de mãe e companheira. “A mulher adquire cada vez mais uma liderança no lar, não como representante da mãe e esposa, mas é a trabalhadora”. Esse processo de evolução permitiu à mulher superar a imagem divulgada no século 20 pelo fascismo de mulher reprodutora. A mulher continua sendo mãe e esposa, mas passa a ser ela mesma, ou seja, ela passa a ter uma identidade, pontuou Munteal.
O historiador destacou ainda que as mulheres, na entrada do século 21, passaram a protagonizar os postos mais relevantes do país. Um exemplo é Dilma Rousseff, eleita no ano passado a primeira presidenta do Brasil. “A mulher hoje é a grande expectativa, do ponto de vista de gênero, de uma virada neste mundo tão conservador que nós temos. É um mundo muito masculino, extremamente machista e violento”. Segundo ele, esse novo eixo abre perspectivas positivas para a mulher no mundo.
O professor da Uerj também falou do papel da mulher no carnaval. A observação é que existe uma “coisificação” evidente da mulher, sobretudo nessas datas festivas, “onde aparece como grande produto nas prateleiras dos meios de comunicação. A mulher é consumida nos meios de comunicação como uma espécie de commoditie (produtos minerais e agrícolas comercializados no mercado internacional), como soja. Se consome no olhar. Não é um consumo só objetivo, físico. É um consumo do voyerismo, que atinge diversas camadas da sociedade brasileira e mundial”.
Apesar das conquistas, Oswaldo Munteal afirmou que há muito ainda para se avançar na história das lutas sociais das mulheres no Brasil. “Há muito que caminhar. Mas, eu vejo, feliz, a mulher chegando ao poder. Vejo pessoas na luta para expandir a presença da mulher nesse campo”. Assinalou a necessidade de um processo de amadurecimento e de convencimento da sociedade civil de que a mulher tem um papel a exercer que não o de objeto, mas como sujeito da história.
Edição: Aécio Amado
Fonte: http://agenciabrasil.ebc.com.br/web/ebc-agencia-brasil/ultimasnoticias?p_p_id=56&p_p_lifecycle=0&p_p_state=maximized&p_p_mode=view&p_p_col_id=column-1&p_p_col_count=1&_56_groupId=19523&_56_articleId=3205939
domingo, 23 de janeiro de 2011
O RESGATE DO CORONEL CERQUEIRA
Ao anoitecer do dia 17 de janeiro de 2011, na sede da seção do Rio de Janeiro da Ordem dos Advogados do Brasil, no plenário Evandro Lins e Silva, teve-se o lançamento do livro Sonho de uma Polícia Cidadã: Coronel Carlos Magno Nazareth Cerqueira, organizado por Ana Beatriz Leal, o coronel PM Íbis Silva Pereira e o professor Oswaldo Munteal Filho, e publicado pelo Núcleo de Identidade Brasileira e História Contemporânea (NIBRAHC) da UERJ.
No lançamento, as exposições, em sua maioria, deram uma grande ênfase aos ideais do cel. Cerqueira, tão abordados pela obra. Nas falas do cel. Carballo e do subsecretário de Segurança Pública do Rio Roberto Sá (ex-oficial da PMERJ), assim como no prefácio escrito pelo cel. Mário Sergio Duarte (comandante-geral da PMERJ), há o reconhecimento da corporação ao cel. Cerqueira, pela sua destacada atuação como comandante-geral da PMERJ nos dois governos de Brizola (1983-1986; 1991-1994). Para o atual comandante-geral, "O coronel Cerqueira nos despertou para o devir constante da sociedade, suscitando mudanças na corporação" (2010: 10), materializando-se "no PROERD, no BPTur, na CAES, no GEPE e em toda forma de policiamento orientado para o atendimento às comunidades, frutos diretos de sua semeadura; reflexos de sua coragem rompedora de paradigmas de tempo e desnaturalizadora de preconceitos" (2010: 10). Por fim, o reconhecimento do seu pioneirismo na polícia: "dissemos na PM, hoje, que coronel Cerqueira era um homem muito adiante do nosso tempo, mas naquela época, tantos o consideraram um lunático".
A fala de Adair Rocha, representante do Ministério da Cultura e professor da UERJ que redigiu a apresentação do livro, teve como ênfase a atuação do cel. Cerqueira no comando da PMERJ numa época de transição do estado de exceção para o estado de direito. Adair Rocha também salienta um aspecto que condiciona o avanço da gestão pública cidadã: "as diferentes instâncias de poder, de governo, isto é, a institucionalização do Estado, terem na população o sujeito da sua existência" (2010: 12), assim, para Rocha, "com o legado de Cerqueira podemos re-significar não só o papel da polícia, mas sobretudo, a autoria dos moradores e da sociedade, no estatuto da cidadania" (2010: 13). A grandeza do cel. Cerqueira para Adair Rocha foi "a coragem de se apontar as questões na sua raiz, caracteristica de sua ação, desmistificando ações e visões preconceituosas, como a que trata os Direitos Humanos como direito de bandido, vinculada à estratégia de se manter a ordem a qualquer maneira" (2010: 14). Em sua opinião, "a leitura deste livro, que traz artigos e entrevistas, acompanhados de comentarios e pesquisas sobre o cidadão que antecipou, neste estado e nesta cidade, o vaticínio do enfrentamento a violência, combatendo a ideia de segurança nacional, que é repressiva, belicosa e, muitas vezes, ideologica, como paradigma para o papel da polícia na sua atuação cotidiana junto a população" (2010: 13).
Vivian Zampa destacou as argurias enfrentadas pelo cel. Cerqueira pelo fato de ser negro, ressaltando a trajetória de Carlos Magno desde a sua infância até se transformar em coronel. Com isso, considero indispensável a abordagem do próprio coronel sobre a questão do negro na segurança pública em artigo homólogo, publicado no livro, defendendo "outro tipo de luta, que é do enfrentamento das concepções teóricas que estariam por trás das crenças que impulsionam o sistema de justiça criminal para punir os negros, os mais pobres e todas as categorias marginalizadas (...) A ideologia da "subcultura da violência" explica a sua concentração em certos grupos sociais e áreas ecológicas determinadas, que quase sempre configuram as classes sociais inferiores e marginalizadas do processo social" (2010: 210). O saudoso cel. Cerqueira acreditava que, "como negro e como policial, era essa a contribuição que poderia oferecer, tanto aos nossos irmãos negros quanto aos nossos irmãos policiais, particularmente (...) para veicular ideias ou reforçar práticas que possam, pouco a pouco, contribuir para a diminuição do quadro de desigualdades sociais que marca a sociedade brasileira" (2010: 211).
Oswaldo Munteal destacou a memória do cel. Cerqueira, dedicando a sua fala a sra. Juçara Cerqueira (viúva do coronel), ressaltando sua integridade e espírito cidadão, além de abordar o modo em que fora assassinado, segundo Munteal, "fora à traição!". Por fim a sra. Juçara recebeu um buque de flores e uma placa das mãos do cel. Carballo, representando a PMERJ, em homenagem ao cel. Cerqueira. Após as exposições, houve um coquetel para os presentes, além da distribuição gratuíta do livro e da doação de cerca de mais de 60 livros a OAB-RJ.
Para terminar essa resenha, utilizo-me da seguinte citação, escrita na apresentação pelo prof. Adair Rocha: "Por tudo isso, pode-se dizer que este livro (por publicar parte da obra e opiniões sobre a gestão do Coronel Cerqueira) homenageia o Rio de Janeiro e o Brasil, pois dá continuidade ao projeto iniciado pelo Chefe-Comandante-Cidadão Coronel Carlos Magno Nazareth Cerqueira" (2010: 14).
* mestrando do Programa de Pós-Graduação em História da UERJ e pesquisador do NIBRAHC/UERJ
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
O Sonho de uma Polícia Cidadã

O NIBRAHC está lançando o livro "O Sonho de uma Polícia Cidadã: Coronel Carlos Magno Nazareth Cerqueira", um retrato do precursor da defesa dos direitos humanos na Polícia Militar do Rio de Janeiro, primeiro oficial negro a comandar a corporação. A publicação, organizada por Ana Beatriz Leal, Ibis Silva Pereira e Oswaldo Munteal, traz uma antologia de textos do coronel e depoimentos de amigos e companheiros de trabalho.
O Cel. Cerqueira ingressou na polícia em 1954, era formado em Psicologia e Filosofia e ocupou o comando-geral da PMERJ por duas vezes, entre 1983 e 1987 e entre 1991 e 1994, durante os governos de Leonel Brizola. Quando assumiu o cargo, discutiu o emprego dos direitos humanos como política essencial das ações policiais, reflexão ainda tão em voga na atualidade. Em 1999, aos 59 anos, morreu assassinado no saguão do Edifício Magnus, no Centro do Rio.
Tendo em vista a importância de relembrar esta figura, e a necessidade de discutir as políticas de segurança pública adotadas ontem e hoje, o NIBRAHC fará o lançamento do livro no dia 17 de janeiro de 2011, às 18 horas, no auditório Evandro Lins e Silva, na OAB-RJ.
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
Revisitando a História: 100 anos da Revolta da Chibata
O Núcleo de Identidade Brasileira e História Contemporânea (NIBRAHC/UERJ) retoma as atividades do Projeto Revisitando a História com um evento sobre os 100 anos da Revolta da Chibata.
Haverá a exibição do vídeodocumentário do Projeto Memória João Cândido – A Luta Pelos Direitos Humanos, dirigido por Tânia Quaresma e, em seguida, debate com os convidados: Antônio Cândido, Candinho (Filho do Almirante João Cândido),Edson Santos (ex-Ministro da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial) e o Prof. Luiz Edmundo Tavares (UERJ).
O evento ocorrerá no próximo dia 25 de novembro, quinta-feira, às 18 horas, no Auditório da Pós-Graduação em História, 9º andar, Bloco F, UERJ.

Não é necessário fazer inscrição antecipada.
Os certificados de participação serão enviados por email.
segunda-feira, 15 de novembro de 2010
Mídia e Eleições
O painel tem como principal objetivo discutir a participação dos veículos de comunicação nos processos eleitorais do país, sobretudo, os eventos relacionados à última eleição presidencial.
Estarão presentes os professores Fernando Sá (FACHA e PUC-Rio), Bolívar Meireles (UERJ), José Eudes (FACHA e PUC-Rio) e César Romero (PUC-Rio).

Não é necessário fazer inscrição antecipada.
Os certificados de participação serão enviados por email.
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
Mulheres celebram 78 anos de direito ao voto e 76 da candidatura feminina
Por Julia de Brito
A comemoração do Dia da Instituição do Voto Feminino, cuja data é 3 de novembro, tem um gosto especial para as mulheres neste ano de 2010. Pela primeira vez no Brasil a população elegeu uma mulher para a presidência da República, a ex-ministra da Casa Civil do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Roussef. O feito, que acontece 76 anos depois da conquista do direito à candidatura para cargos políticos e 78 anos após o gênero ter direito ao voto - antes apenas permitido a homens ricos - se consagra como um marco na história da política brasileira.
O direito ao voto para mulheres só foi conquistado por meio do Código Eleitoral provisório de 24 de fevereiro de 1932. Mas na época, a conquista ainda não seria completa: somente mulheres casadas com a autorização de seus maridos, viúvas, e solteiras com renda própria podiam votar. Só no ano de 1946, as restrições foram retiradas e o voto feminino passou a ser obrigatório.
- O voto foi e é uma conquista muito importante. Isso veio das revoluções burguesas e na década de 30 e 40 foi se consolidando até que a mulher se tornou um ator político, sobretudo a partir dos anos 60, na política brasileira. A mulher passou a ter uma atitude propositiva no momento em que a democracia brasileira foi ameaçada após o golpe de 64. Foi um momento em que as jovens mulheres brasileiras passaram a atuar no resgate dos seus direitos como também no resgate de direitos de todos os brasileiros, entre eles, idosos e crianças – acrescenta Oswaldo, também pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
Superintendente dos Direitos da Mulher (Sudim) e presidente do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher (Cedim), Cecília Teixeira considera a conquista ao cargo extremamente representativa.
- Com certeza é uma conquista importantíssima. Não somente para mostrar a competência das mulheres, mas também do ponto de vista simbólico, até para que as mulheres se espelhem nisso. Elas precisam saber que podem ocupar cargos políticos, além de outros espaços e cargos de chefia – diz.
De acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), as mulheres representam 51,81% do eleitorado brasileiro, constituindo grande força na escolha dos candidatos eleitos no país.
Cedim e Sudim
No âmbito governamental, no estado do Rio, dois órgãos trabalham a favor dos direitos da mulher, o Cedim – Conselho Estadual dos Direitos da Mulher e o Sudim – Superintendência dos Direitos da Mulher. O Cedim é responsável pelo monitoramento de políticas específicas nas áreas de saúde, educação, cultura, prevenção e combate à violência, trabalho, esporte, lazer e comunicação. O movimento de mulheres está presente na estrutura do órgão por meio de seu Conselho Deliberativo, cujas integrantes são de diferentes segmentos da sociedade civil. Por sua vez, a Superintendência dos Direitos da Mulher é responsável pela execução de políticas públicas relacionadas ao gênero. Segundo a superintendente dos direitos femininos, Cecília Teixeira, novos projetos estão em andamento no órgão. Entre eles a campanha sobre violência contra a mulher, 16 dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres, cujo interesse é contribuir para a efetivação dos direitos das mulheres e a divulgação do Plano Nacional de Políticas para as Mulheres, fornecendo informações que sensibilizem a sociedade em geral, inspirando atitudes não discriminatórias. A campanha foi iniciada em março de 2010 e será encerrada no dia 10 de dezembro, Dia dos Direitos Humanos.
Outra ação de destaque é o curso presencial de Qualificação Profissional de mulheres em situação de violência. A intenção é qualificar profissionalmente 1.440 mulheres atendidas pela Rede de Atendimento dos pólos regionais do Estado. São sete módulos de curso: informática, idiomas, hotelaria (camareira), produção de eventos, (ornamentação), cuidador de idosos, serviços gerais e manutenção de micro.
A Sudim também vai realizar um curso de Formação de Promotoras Legais Populares. Serão 120 mulheres identificadas como referência nos 18 territórios do Programa Mulheres da Paz para atuarem como promotoras legais populares na construção e fortalecimento de redes sociais de prevenção e enfrentamento à violência doméstica e urbana.
Dois mil e quinhentos servidores públicos que atuam principalmente nas áreas de Atendimento Especializado dentro das políticas para as mulheres, da Assistência Social, da Saúde e da Justiça também serão qualificados com a finalidade de fortalecer e articular as redes nos dez Pólos regionais do Estado do Rio de Janeiro. As sedes dos Pólos Regionais se situam nos seguintes municípios: Rio de Janeiro (capital), Niterói, Nova Iguaçu, Cabo Frio, Nova Friburgo, Campos, Itaperuna, Volta Redonda, Vassouras, Angra dos Reis. O curso termina este mês.
O Sudim possui um telefone de atendimento que funciona de 9h ás 17h: 2332-8249.
Matéria disponível no site: http://www.portaldocidadao.rj.gov.br/noticias.asp?N=61175
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
CARTA ABERTA A FERNANDO HENRIQUE CARDOSO
Meu caro Fernando
Vejo-me na obrigação de responder a carta aberta que você dirigiu ao Lula, em nome de uma velha polêmica que você e o José Serra iniciaram em 1978 contra o Rui Mauro Marini, eu, André Gunder Frank e Vânia Bambirra, rompendo com um esforço teórico comum que iniciamos no Chile na segunda metade dos nos 1960. A discussão agora não é entre os cientistas sociais e sim a partir de uma experiência política que reflete comtudo este debate teórico. Esta carta assiada por você como ex-presidente é uma defesa muito frágil teórica e politicamente de sua gestão. Quem a lê não pode compreender porque você saiu do governo com 23% de aprovação enquanto Lula deixa o seu governo com 96% de aprovação. Já discutimos em várias oportunidades os mitos que se criaram em torno dos chamados êxitos do seu governo. Já no seu governo vários estudiosos discutimos, já no começo do seu governo, o inevitável caminho de seu fracasso junto à maioria da população. Pois as premissas teóricas em que baseava sua ação política eram profundamente equivocadas e contraditórias com os interesses da maioria da população. (Se os leitores têm interesse de conhecer o debate sobre estas bases teóricas lhe recomendo meu livro já esgotado: Teoria da Dependencia: Balanço e Perspectivas, Editora Civilização Brasileira, Rio, 2000).
Contudo nesta oportunidade me cabe concentrar-me nos mitos criados em torno do seu governo, os quais você repete exaustivamente nesta carta aberta.
O primeiro mito é de que seu governo foi um êxito econômico a partir do fortalecimento do real e que o governo Lula estaria apoiado neste êxito alcançando assim resultados positivos que não quer compartir com você... Em primeiro lugar vamos desmitificar a afirmação de que foi o plano real que acabou com a inflação. Os dados mostram que até 1993 a economia mundial vivia uma hiperinflação na qual todas as economias apresentavam inflações superiores a 10%. A partir de 1994, TODAS AS ECONOMIAS DO MUNDO APRESENTARAM UMA QUEDA DA INFLAÇÃO PARA MENOS DE 10%. Claro que em cada pais apareceram os “gênios” locais que se apresentaram como os autores desta queda. Mas isto é falso: tratava-se de um movimento planetário.
No caso brasileiro, a nossa inflação girou, durante todo seu governo, próxima dos 10% mais altos. TIVEMOS NO SEU GOVERNO UMA DAS MAIS ALTAS INFLAÇÕES DO MUNDO. E aqui chegamos no outro mito incrível. Segundo você e seus seguidores (e até setores de oposição ao seu governo que acreditam neste mito) sua política econômica assegurou a transformação do real numa moeda forte. Ora Fernando, sejamos cordatos: chamar uma moeda que começou em 1994 valendo 0,85 centavos por dólar e mantendo um valor falso até 1998, quando o próprio FMI exigia uma desvalorização de pelo menos uns 40% e o seu ministro da economia recusou-se a realizá-la “pelo menos até as eleições”, indicando assim a época em que esta desvalorização viria e quando os capitais estrangeiros deveriam sair do país antes de sua desvalorização, O fato é que quando você flexibilizou o cambio o real se desvalorizou chegando até a 4,00 reais por dólar. E não venha por a culpa da “ameaça petista” pois esta desvalorização ocorreu muito antes da “ameaça Lula”. ORA, UMA MOEDA QUE SE DESVALORIZA 4 VEZES EM 8 ANOS PODE SER CONSIDERADA UMA MOEDA FORTE? Em que manual de economia? Que economista respeitável sustenta esta tese?
Conclusões: O plano real não derrubou a inflação e sim uma deflação mundial que fez cair as inflações no mundo inteiro. A inflação brasileira continuou sendo uma das maiores do mundo durante o seu governo. O real foi uma moeda drasticamente debilitada. Isto é evidente: quando nossa inflação esteve acima da inflação mundial por vários anos, nossa moeda tinha que ser altamente desvalorizada. De maneira suicida ela foi mantida artificialmente com um alto valor que levou à crise brutal de 1999.
Segundo mito; Segundo você, o seu governo foi um exemplo de rigor fiscal. Meu Deus: um governo que elevou a dívida pública do Brasil de uns 60 bilhões de reais em 1994 para mais de 850 bilhões de dólares quando entregou o governo ao Lula, oito anos depois, é um exemplo de rigor fiscal? Gostaria de saber que economista poderia sustentar esta tese. Isto é um dos casos mais sérios de irresponsabilidade fiscal em toda a história da humanidade.
E não adianta atribuir este endividamento colossal aos chamados “esqueletos” das dívidas dos estados, como o fez seu ministro de economia burlando a boa fé daqueles que preferiam não enfrentar a triste realidade de seu governo. UM GOVERNO QUE CHEGOU A PAGAR 50% AO ANO DE JUROS POR SEUS TÍTULOS, PARA EM SEGUIDA DEPOSITAR OS INVESTIMENTOS VINDOS DO EXTERIOR EM MOEDA FORTE A JUROS NORMAIS DE 3 A 4%, NÃO PODE FUGIR DO FATO DE QUE CRIOU UMA DÍVIDA COLOSSAL SÓ PARA ATRAIR CAPITAIS DO EXTERIOR PARA COBRIR OS DÉFICITS COMERCIAIS COLOSSAIS GERADOS POR UMA MOEDA SOBREVALORIZADA QUE IMPEDIA A EXPORTAÇÃO, AGRAVADA AINDA MAIS PELOS JUROS ABSURDOS QUE PAGAVA PARA COBRIR O DÉFICIT QUE GERAVA. Este nível de irresponsabilidade cambial se transforma em irresponsabilidade fiscal que o povo brasileiro pagou sob a forma de uma queda da renda de cada brasileiro pobre. Nem falar da brutal concentração de renda que esta política agravou dráticamente neste pais da maior concentração de renda no mundo. VERGONHA FERNANDO. MUITA VERGONHA. Baixa a cabeça e entenda porque nem seus companheiros de partido querem se identifica com o seu governo...te obrigando a sair sozinho nesta tarefa insana.
Terceiro mito - Segundo você, o Brasil tinha dificuldade de pagar sua dívida externa por causa da ameaça de um caos econômico que se esperava do governo Lula. Fernando, não brinca com a compreensão das pessoas. Em 1999 o Brasil tinha chegado à drástica situação de ter perdido TODAS AS SUAS DIVISAS. Você teve que pedir ajuda ao seu amigo Clinton que colocou à sua disposição ns 20 bilhões de dólares do tesouro dos Estados Unidos e mais uns 25 BILHÕES DE DÓLARES DO FMI, Banco Mundial e BID. Tudo isto sem nenhuma garantia.
Esperava-se aumentar as exportações do pais para gerar divisas para pagar esta dívida. O fracasso do setor exportador brasileiro mesmo com a espetacular desvalorização do real não permitiu juntar nenhum recurso em dólar para pagar a dívida. Não tem nada a ver com a ameaça de Lula. A ameaça de Lula existiu exatamente em conseqüência deste fracasso colossal de sua política macro-econômica. Sua política externa submissa aos interesses norte-americanos, apesar de algumas declarações críticas, ligava nossas exportações a uma economia decadente e um mercado já copado. A recusa dos seus neoliberais de promover uma política industrial na qual o Estado apoiava e orientava nossas exportações. A loucura do endividamento interno colossal. A impossibilidade de realizar inversões públicas apesar dos enormes recursos obtidos com a venda de uns 100 bilhões de dólares de empresas brasileiras. Os juros mais altos do mundo que inviabilizava e ainda inviabiliza a competitividade de qualquer empresa. Enfim, UM FRACASSO ECONOMICO ROTUNDO que se traduzia nos mais altos índices de risco do mundo, mesmo tratando-se de avaliadoras amigas. Uma dívida sem dinheiro para pagar... Fernando, o Lula não era ameaça de caos. Você era o caos. E o povo brasileiro correu tranquilamente o risco de eleger um torneiro mecânico e um partido de agitadores, segundo a avaliação de vocês, do que continuar a aventura econômica que você e seu partido criou para este pais.
Gostaria de destacar a qualidade do seu governo em algum campo mas não posso faze-lo nem no campo cultural para o qual foi chamado o nosso querido Francisco Weffort (neste então secretário geral do PT) e não criou um só museu, uma só campanha significativa. Que vergonha foi a comemoração dos 500 anos da “descoberta do Brasil”. E no plano educacional onde você não criou uma só universidade e entou em choque com a maioria dos professores universitários sucateados em seus salários e em seu prestígio profissional. Não Fernando, não posso reconhecer nada que não pudesse ser feito por um medíocre presidente.
Lamento muito o destino do Serra. Se ele não ganhar esta eleição vai ficar sem mandato, mas esta é a política. Vocês vão ter que revisar profundamente esta tentativa de encerrar a Era Vargas com a qual se identifica tão fortemente nosso povo. E terão que pensar que o capitalismo dependente que São Paulo construiu não é o que o povo brasileiro quer. E por mais que vocês tenham alcançado o domínio da imprensa brasileira, devido suas alianças internacionais e nacionais, está claro que isto não poderia assegurar ao PSDB um governo querido pelo nosso povo. Vocês vão ficar na nossa história com um episódio de reação contra o vedadeiro progresso que Dilma nos promete aprofundar. Ela nos disse que a luta contra a desigualdade é o verdadeiro fundamento de uma política progressista. E dessa política vocês estão fora.
Apesar de tudo isto, me dá pena colocar em choque tão radical uma velha amizade. Apesar deste caminho tão equivocado, eu ainda gosto de vocês ( e tenho a melhor recordação de Ruth) mas quero vocês longe do poder no Brasil. Como a grande maioria do povo brasileiro. Poderemos bater um papo inocente em algum congresso internacional se é que vocês algum dia voltarão a freqüentar este mundo dos intelectuais afastados das lides do poder.
Com a melhor disposição possível mas com amor à verdade, me despeço
Theotonio Dos Santos
thdossantos@terra.com.br, /theotoniodossantos.blogspot.com/
Theotonio Dos Santos é Professor Emérito da Universidade Federal Fluminense, Presidente da Cátedra da UNESCO e da Universidade das Nações Unidas sobre economia global e desenvolvimentos sustentável. Professor visitante nacional sênior da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Fonte: http://theotoniodossantos.blogspot.com/